SINOPSE HISTÓRICA DAS ACADEMIAS – 1ª. PARTE

Gaitano Antonaccio*

Sobre as academias atuais, nas suas mais diversas formas, poder-se-ia dizer que entre tantas qualidades perdidas, talvez o respeito entre seus membros, a solidariedade, o romantismo das reuniões, a pujança de seus objetivos, foram os pontos mais atingidos. Se bem que as academias, na sua quase totalidade, sempre deixaram margens para críticas de inconformismo no cenário das artes, das ciências e das letras, porque, malgrado contemplarem em seus quadros, homens indiscutivelmente dotados de conhecimentos, são muitos os que de fora, se sentem injustiçados. A vaidade, a inveja, a soberba, os interesses do poder e de liderança costumam desviar os verdadeiros princípios de justiça, ética, moral e bons costumes, e não raro, algumas academias se transformam em “igrejas” ou “castas”, onde muitas vezes ingressam membros despidos de academicismo, em troca de homens verdadeiramente eivados das mais completas qualidades intelectuais, para receberem o status de imortais. A palavra Academia era um termo usado na antiga Grécia e servia para designar um jardim ou parque, onde se reuniam literatos, cientistas, artistas, que derivou de Academos ou Hecademos – antigo herói da Ática que, de acordo com a lenda, indicou aos seus irmãos, o lugar onde Helena de Tróia fora escondida por Teseu.

A história das academias começou, quando o filósofo Platão fundou uma associação cultural em Atenas, a qual recebeu o nome de Academia, tendo sido, pois, a primeira fundada no mundo, por volta do ano 385 antes de Cristo. O grande filósofo grego era proprietário de uma grande faixa de terras, com um belo jardim onde reunia com os seus discípulos. Essa corporação intelectual existiu até o ano 529, quando o imperador Justiniano a extinguiu. Depois da iniciativa de Platão foram criadas outras academiais, espalhadas por toda a Europa, organizadas com melhor aperfeiçoamento, sendo reguladas por meio de Leis e estatutos próprios.

As academias têm sido criticadas também, por causa de suas solenidades, rigidez de formas e sem dúvida, pela distância que muitas mantêm com a sociedade, isto é, elas passam a ser encaradas como templos de sabedoria em que outras pessoas não as alcançam ou são consideradas inferiores. Os tempos, entretanto, estão mudando, e hoje, as academias estão exercendo suas atividades, em sintonia com estudantes, professores, escritores, cientistas, artistas, com a sociedade e a cultura vem sendo beneficiada por meio dessas atitudes. A democratização da intelectualidade é sem dúvida, uma forma eclética de se aglutinarem intelectuais de várias estirpes, unindo-se a sabedoria em seus vários níveis, em proveito de todos aqueles que buscam aprender cada vez mais.

Essa modernização teve início, quando o movimento renascentista deu origem às associações livres, compostas por eruditos, iniciando suas estruturas com estatuto e normas fixas, passando a denominar-se de academias, termo que vem sendo usado com grande variedade de sentidos.

A partir dos meados do século XVI e por todo o XVII proliferaram essas associações. Em várias cidades e de forma constante, surgia um tipo diferente. Infelizmente, apesar do caráter literário, muitas tiveram duração efêmera. Eram academias filosófico-literárias, filosófico-científicas, científicas, arqueológicas e artísticas. Em 1460 nasceu em Roma, a Academia Romana fundada por Pampônio Neto; ainda no século XIV surgiu a Academia de Nápoles, entretanto, a mais famosa de todas neste século, foi criada em Florença, no ano de 1582, sob o nome de Academia della Crusca, visando a promover o cultivo da língua italiana. Em 1635 surgiu a famosa Academie Française, e em 1860, em Roma foi criada a primeira Arcádia estruturada em forma de academia, visando o retorno à pureza clássica, com naturalidade espontânea e simples.

Apesar de tantas academias criadas a partir do século XVI, vale salientar que a maioria desapareceu, algumas logo depois de sua criação. Pesquisando a História, vamos encontrar em 1566 a Academia Romana de Santa Cecília; Academia de São Lucas, composta toda ela de pintores; em 1748, nasceu a famosa Royal Academy of Arts, ainda hoje existente; em 1744, os espanhóis criaram a Academia de Belas-Artes de Madrid e desde então não faltam nas cidades do mundo, as mais diversas modalidades de Academia.

Em Portugal, a primeira Academia foi fundada em 1647 por Dom Antônio Álvares da Cunha, com o nome de Academia dos Generosos, sucedida em 1696 pela Academia das Conferências Discretas e Eruditas. Essa Academia ainda recebeu os nomes de Academia dos Anônimos, até chegar em 1717 ao nome de Academia Portuguesa, seguindo o modelo da Francesa. Ainda encontramos em Portugal, a Academia das Ciências de Lisboa, criada em 1779; e, em 1790, a Arcádia Lusitana.

No Brasil o movimento acadêmico teve início em 1736, quando um grupo de intelectuais criou na cidade do Rio de Janeiro, a Academia dos Felizes, seguindo-se em 1752, a fundação da Academia dos Seletos. Quase no mesmo período, um dos membros da Inconfidência Mineira, o poeta Cláudio Manuel da Costa fundou com alguns parceiros a Arcádia do Ultramar e logo após, a Arcádia de São João de El-Rei, ambas de pouca duração.

Antes da criação da Academia Brasileira de Letras em 1897, foi fundada em 1724, a Academia Brasílica dos Esquecidos; em 1759, encontramos a Academia dos Renascidos; em 1829, surgiu na cidade do Rio de Janeiro, a Academia Nacional de Medicina; em 1838 nasceu o Instituto Histórico-Geográfico Brasileiro, órgão que, funcionando como as academias, tem sede hoje em quase todos os estados brasileiros, acompanhando o mesmo modelo do primitivo instituto.

(Em nosso próximo artigo, daremos continuidade a este assunto. Obrigado.

*Conselheiro da Fundação Panamazônia, membro das Academias: de Letras, Ciências e Artes do Amazonas; de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas; Brasileira de ciências Contábeis; de Ciências Contábeis do Amazonas; de Letras do Brasil, de Letras e Culturas da Amazônia – ALCAMA; correspondente da Academia de Letras do Rio de Janeiro, idem do Instituto Geográfico e Histórico do Espírito Santo e outras.
SINOPSE HISTÓRICA DAS ACADEMIAS – PARTE FINAL

A Academia Brasileira de Letras começou a dar os primeiros passos para a sua instituição, desde 1847, por meio de alguns membros do Instituto Histórico-Geográfico do Rio de Janeiro. Mas essa iniciativa não foi bem-sucedida, retornando com inovações em 1878, Da mesma forma, também não prosperou a iniciativa do intelectual Afonso Celso Júnior, criador em 1883, de uma Associação dos Homens de Letras do Brasil, extinta seguidamente sob as ordens do imperador D. Pedro II, por questões meramente políticas.

Ao ser implantada a República no Brasil, em 1889, o escritor Medeiros e Albuquerque voltou a insistir na fundação de uma Academia seguindo o modelo francês, mas ainda não foi desta feita que o idealizador encontrou adeptos ou aglutinou a intelectualidade do Rio de Janeiro, para tal concretização. Coube, porém ao emérito romancista José Veríssimo, por meio da Revista Brasileira, aglutinar um grupo decidido, quando surgiu, finalmente, a figura do Dr. Lúcio de Mendonça determinado a fundar uma Academia Brasileira sob o patrocínio do Estado, ideia que não recebeu a unanimidade dos demais confrades.

Entretanto, como tem sido comum nas decisões políticas brasileiras, o então Ministro do Interior, Aristides Lobo negou no último instante o valioso apoio governamental. Entretanto, vale salientar que Lúcio de Mendonça exercia na época o cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal e prosseguiu na sua ideia. Gozando, pois, de grande prestígio reuniu seus parceiros no dia 9 de outubro de 1896, e resolveu fundar uma Academia de ordem privada, cuja notícia foi divulgada no dia seguinte, na Gazeta de Notícias e no Jornal do Comércio do dia posterior, nascendo, porém, oficialmente, a 28 de janeiro de 1897, a Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito para primeiro presidente o romancista e poeta Machado de Assis. A primeira diretoria ficou assim constituída: Presidente: Machado de Assis; Secretário Geral: Joaquim Nabuco; Secretários: Rodrigo Otávio e Silva Ramos; Tesoureiro: Inglês de Souza.

As reuniões preparatórias para a fundação da Academia Brasileira de Letras tiveram início no dia 15 dezembro de 1896 sob a presidência de Machado de Assis, que foi aclamado. Numa dessas reuniões foi aprovado o Estatuto, em 28 de janeiro de 1897, composta por um quadro de 40 membros fundadores. Finalmente, no dia 28 de julho de 1897 foi realizada a reunião inaugural no prédio do Pedagogium, localizado em frente ao conhecido Passeio Público, no Centro do Rio de Janeiro. Depois da fundação, as reuniões da Academia eram realizadas no antigo Ginásio Nacional, no salão nobre do Ministério do Interior, no salão do Real Gabinete Português de Letras, além de escritórios de membros do sodalício.

A partir de 1904, a Academia conseguiu ocupar a ala esquerda do Silogeu Brasileiro, prédio do governo, que abrigava outras entidades culturais do pais, permanecendo ali, até possuir sede própria, conquistada por doação em 1923, Essa doação foi uma iniciativa do presidente da época, intelectual Afrânio Peixoto, que juntamente com o embaixador da França, sr. Raymond Conty, conseguiu se apropriar do prédio do Pavilhão Francês, construído para a Exposição do Centenário da Independência do Brasil e era uma réplica do Petit Trianon de Versalhes, projeto do arquiteto francês Ange-Jacques Gabriel, elaborado entre os anos de 1762 e 1768.

Depois de fundada a Academia Brasileira de Letras passaram a ser criadas outras nos demais estados da Federação, malgrado não possuírem a importância e a grandiosidade da Brasileira. A maioria delas tornaram-se ativas e cumpriram papel de relevo na criação de espaços para a divulgação da literatura de seus estados, onde começaram a ter destaques, a Academia Paulista de Letras, A Cearense de Letras, A Academia Carioca, a Baiana, a de Recife, a Caetiteense, de Minas Gerais e várias outras. Mas havia de fato, uma grande dificuldade em se fundarem outras academias de letras, porque muitas cidades não possuíam intelectuais ou literatos em número suficiente para a formação de sodalícios pujantes e que pudessem representar uma cultura nacional abrangente.

Com o tempo, algumas categorias de profissionais liberais, começaram a fundar entidades associativas, reunindo em seus quadros escritores, cientistas, artistas, médicos, maçons, militares, e fundaram suas próprias academias de letras, que obedeciam especificamente às categorias de seus membros.

Lamenta-se, historicamente, que muitas dessas entidades nasciam, como ainda hoje ocorre, cercadas de um grande entusiasmo, algumas com grande divulgação e repercussão, mas pouco tempo depois desapareciam, posto que nem sempre as pessoas admitidas pela sua sabedoria, intelectualidade e qualidades profissionais, estão dispostas ao sacrifício de trabalhar de forma desprendida ou até mesmo custeando despesas impossíveis de serem evitadas, a fim de manter a Academia viva na sociedade, produzindo cultura, enaltecendo as artes, difundindo a Ciência ou cultivando as letras, objetivando a engrandecer a cultura e a educação.

São muitos os membros acadêmicos que possuidores das mais altas qualidades, nem sempre colaboram com suas presenças nas reuniões, nas programações de suas academias, muitos até mesmo por impossibilidade temporal, afetos aos seus compromissos de atendimento a clientes, viagens, participação em Congressos e outras atividades que lhes impossibilitam a participação acadêmica. E essas coisas nos tempos que correm passam a ser cada dia mais intensas a dificultar a vida dos que mesmo com boa vontade de colaborar não conseguem.

Ressalte-se ainda, que a tecnologia, o avanço da Ciência, as novas profissões, os inúmeros cursos de aperfeiçoamento na formação profissional de cada ser humano, torna o universo dos intelectuais, um número infinito de pessoas capazes se adentrar uma Academia e os espaços não comportam todo esse universo e são muitos os que ficam de fora, sendo, pois, injustiçados.

Conselheiro da Fundação Panamazônia, membro das Academias: de Letras, Ciências e Artes do Amazonas; de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas; Brasileira de ciências Contábeis; de Ciências Contábeis do Amazonas; de Letras do Brasil, de Letras e Culturas da Amazônia – ALCAMA; correspondente da Academia de Letras do Rio de Janeiro, idem do Instituto Geográfico e Histórico do Espírito Santo e outras.