Desenvolvido pela Leap Studio e publicado pela 4Divinity, Realm of Ink chegou em 26 de maio de 2026 para PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch e PC, após passar pelo acesso antecipado no Steam desde setembro de 2024. Na plataforma da Valve, o jogo acumulou avaliações “Muito positivas”, o que já indicava que havia algo interessante nessa mistura de ação rápida, roguelite e fantasia chinesa.
E depois de algumas horas jogando no PlayStation 5, fica fácil entender o motivo. Realm of Ink é daqueles jogos que fisgam no clássico pensamento de “só mais uma run”. Ele não esconde suas influências: a estrutura lembra bastante Hades e Hades II, com salas curtas, recompensas constantes, builds que mudam a cada tentativa e uma base central cheia de NPCs. Só que, no lugar da mitologia grega, o game aposta em uma estética chinesa de tinta, fantasia oriental e criaturas folclóricas.
Esse visual também conversa com a nova leva de jogos chineses que têm chamado atenção nos últimos anos. Enquanto Wuchang: Fallen Feathers trabalha uma fantasia sombria inspirada na China da Dinastia Ming, Realm of Ink segue por um caminho mais colorido, estilizado e próximo da pintura tradicional chinesa, conhecida como ink-wash ou shui-mo. O resultado é uma identidade forte, mesmo quando a jogabilidade deixa claro de onde vieram várias de suas ideias.
Builds e relíquias engrenam a jogatina
A estrutura das partidas segue o modelo clássico do gênero. Você avança por salas, derrota grupos de inimigos, escolhe recompensas, enfrenta mini-chefes e tenta montar uma build forte o suficiente para sobreviver até o próximo grande desafio.
A diferença está na quantidade de combinações possíveis. O jogo trabalha com elementos como fogo, água, terra, metal e madeira, permitindo criar estilos bem diferentes de combate.
Além disso, Realm of Ink possui relíquias, elixires, vantagens, melhorias passivas e as chamadas Ink Gems, que mudam bastante o funcionamento das builds. Oficialmente, o jogo destaca mais de 40 Ink Gems, mais de 200 artefatos e um sistema de mascotes que se transforma conforme as combinações escolhidas.
Por isso, ler os efeitos dos itens é essencial. Esse não é um roguelite em que você pode simplesmente escolher qualquer melhoria no automático e esperar que tudo funcione. Nas dificuldades mais altas, uma decisão ruim pode comprometer completamente o seu jogo.
Variedade de personagens é um diferencial
O maior acerto de Realm of Ink está nos seus personagens jogáveis. Logo nas primeiras runs, o jogo deixa claro que a variedade de estilos é uma das suas principais forças.
São personagens com armas, golpes e ritmos bem diferentes. Alguns funcionam melhor no corpo a corpo, com ataques rápidos e pressão constante. Outros apostam em magia, controle de área ou dano à distância. Essa troca muda bastante a sensação de cada tentativa e faz com que o jogo ganhe um fator replay muito forte.

Excesso de partículas e informações na tela
Quando tudo está sob controle, Realm of Ink é muito divertido. O combate é rápido, responsivo e tem aquele ritmo gostoso de desviar, atacar, ativar habilidades e ver a build crescer sala após sala. O problema aparece quando o jogo começa a exagerar nos efeitos visuais.
Com builds mais fortes, a tela fica cheia de partículas, explosões, números de dano e golpes inimigos acontecendo ao mesmo tempo. Em alguns momentos, é quase impossível diferenciar seus ataques dos ataques dos inimigos. A situação fica tão carregada que você passa a jogar quase no instinto, desviando e apertando botões sem entender exatamente o que está acontecendo.
Para um jogo tão rápido, clareza é fundamental. E Realm of Ink ainda precisa controlar melhor essa poluição visual.
A narrativa tem charme, mas não é o motor da experiência
Realm of Ink até começa com uma ideia interessante: Red não é apenas uma guerreira em busca de um inimigo poderoso, mas alguém que descobre estar presa a uma existência já determinada. A perseguição ao Demônio Raposa abre caminho para uma trama sobre destino, identidade e tentativa de romper as regras de um mundo literalmente escrito em tinta.
É uma premissa boa, especialmente porque combina com a estética do jogo. Tudo parece fazer parte de uma pintura viva, de uma fábula oriental em movimento. O problema é que essa força conceitual não se transforma em uma narrativa realmente marcante ao longo da jornada.
A ideia é familiar para quem já jogou outros roguelites narrativos, mas aqui ela não tem o mesmo peso. Muitos NPCs cumprem mais uma função mecânica do que emocional, e as interações acabam perdendo força depois de algumas tentativas.
Existe uma história ali, ela conversa bem com o universo visual do game, mas raramente assume o protagonismo. No fim, o que realmente empurra o jogador para frente não é a curiosidade pelo próximo capítulo, e sim a vontade de testar outra build, outro personagem ou outra combinação de relíquias.

Uma bela pintura em movimento, com alguns borrões técnicos
Na parte visual, Realm of Ink tem uma identidade forte. A inspiração em pintura chinesa tradicional aparece nos cenários, nos efeitos de pincelada, nas criaturas e na forma como o mundo parece ter sido desenhado à mão. É um estilo que combina muito bem com a proposta do jogo e ajuda o título a se destacar em um gênero cada vez mais disputado.
As áreas mais avançadas são especialmente bonitas. O jogo sabe usar cores, contrastes e elementos orientais para criar ambientes que parecem páginas ilustradas de uma lenda chinesa. Mesmo quando a ação fica intensa, existe personalidade na direção de arte.
No PlayStation 5, a performance durante os combates foi sólida na maior parte do tempo. Os incômodos aparecem mais fora das batalhas. Alguns menus apresentam pequenos engasgos, principalmente na hora de trocar personagens, organizar relíquias ou mexer em melhorias.
A trilha sonora, por outro lado, não acompanha a força do visual. Os efeitos de combate funcionam, os golpes têm impacto e as batalhas soam bem, mas as músicas não deixam muita marca.
Review de Realm of Ink: vale a pena?
Realm of Ink é um roguelite competente, estiloso e fácil de recomendar para quem gosta de ação rápida com bastante espaço para experimentação. A variedade de personagens, o sistema de builds e a quantidade de relíquias criam aquele ciclo viciante em que cada tentativa parece abrir uma nova possibilidade.
O jogo também entende algo fundamental para o gênero: perder não pode significar parar. Mesmo depois de uma run ruim, sempre existe a sensação de que a próxima pode funcionar melhor, seja por uma escolha diferente, uma relíquia nova ou um personagem que ainda não foi explorado direito.
Ainda assim, o pacote não é livre de problemas. A tela pode ficar confusa demais em builds avançadas, o equilíbrio das dificuldades finais oscila bastante e a história não consegue acompanhar o potencial do universo apresentado. São falhas perceptíveis, principalmente para quem pretende investir muitas horas no endgame.
Mesmo com esses tropeços, Realm of Ink entrega o que mais importa: combate prazeroso, progressão envolvente e vontade constante de recomeçar. No fim, é um jogo com alguns borrões, mas com uma pintura bonita o bastante para merecer espaço na biblioteca de quem gosta do gênero.
Fonte/Foto: SBT NEWS



