Mais do que transformar a paisagem urbana de Parintins (a 369 quilômetros de Manaus), o projeto “Parintins Galeria Cidade Aberta” tem se consolidado como um espaço de representatividade e valorização das mulheres na arte urbana. Em sua quinta edição, realizada pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, a iniciativa destaca a presença feminina na criação dos murais que integram a programação do Circuito da Cultura 2026, durante o 59º Festival de Parintins.
Neste ano, artistas mulheres ocupam um lugar de destaque no projeto, assinando obras que abordam ancestralidade, identidade, território e pertencimento.

Entre os destaques está o mural “Yube e o ventre da sabedoria: a trama da mulher ancestral”, criado pelas artistas Day Cruz e Kamy Wará, que estreiam no projeto. Instalada nas proximidades da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, a obra propõe uma reflexão sobre o papel das mulheres na preservação e transmissão dos saberes tradicionais, inspirada na cosmologia do povo Huni Kuin.
A participação feminina não se limita à concepção artística dos murais, mas também alcança as equipes envolvidas na execução das obras. Em suas estreias, Day e Kamy produziram o mural junto de uma equipe formada exclusivamente por mulheres.

FOTO: Gabi Vitim / Secretaria de Cultura e Economia Criativa
“Foi uma experiência muito especial. Trabalhamos com uma equipe formada por mulheres, construindo juntas um mural que fala justamente sobre os conhecimentos e ensinamentos transmitidos entre mulheres. Existe uma força muito grande nesse encontro”, afirma a artista Day Cruz.
Para a artista, a presença feminina nesta edição tem potencial para inspirar outras jovens a ingressarem no universo da arte urbana. “Acredito que muitas meninas vão se reconhecer nesse processo. É importante ver mulheres assinando obras, liderando equipes e mostrando que esse espaço também nos pertence”, destaca.
Força ancestral

FOTO: Gabi Vitim / Secretaria de Cultura e Economia Criativa
A artista indígena Kamy Wará, da etnia Sateré-Mawé, ressalta que sua produção artística está diretamente ligada à identidade de seu povo e à valorização dos saberes ancestrais.
“Acredito que tudo o que produzo parte da minha vivência enquanto mulher indígena. A arte se tornou uma ferramenta para falar sobre temas que precisam de mais visibilidade e para fortalecer narrativas que, muitas vezes, não ocupam esses espaços”, explica.
Segundo Kamy, a ampliação da participação feminina no projeto representa uma conquista importante para as artistas locais. “Quando vemos mulheres ocupando espaços que durante muito tempo foram majoritariamente masculinos, percebemos que também podemos alcançar esses lugares. Isso fortalece não apenas quem está participando agora, mas também as meninas que virão depois”, afirma.
Intercâmbio cultural
Além de ampliar a participação feminina, a quinta edição do Parintins Galeria Cidade Aberta também promoveu o intercâmbio entre artistas de diferentes regiões do país. Neste ano, a artista visual paulista Mag Magrela participou pela primeira vez do projeto, assinando o mural “Ilha Encantada” e compartilhando experiências com artistas locais.

Para Day Cruz, a convivência com a artista convidada representou uma oportunidade de aprendizado e troca de vivências. “Ver esse protagonismo feminino este ano é muito bonito. Tivemos a oportunidade de pintar com a Mag, fomos lá dar uma ajudinha para ela, trocar ideias. Foi uma experiência muito boa ter esse contato com pessoas que têm tantas vivências fora da ilha e, ao mesmo tempo, contar com o apoio dos artistas daqui”, detalha.
Kamy Wará também destaca a importância da presença de mulheres artistas de diferentes territórios dentro do projeto. “Foi uma grande alegria quando soubemos que, além de nós, uma artista convidada também participaria do projeto. A Mag tem um trabalho maravilhoso e muito singular. Quando mulheres passam a ocupar esses espaços, percebemos o quanto isso influencia outras pessoas e fortalece ainda mais a nossa presença na arte”, disse.
Em 2026, o Parintins Galeria Cidade Aberta entregou 15 novos murais, produzidos em diferentes pontos da cidade. Com isso, o projeto alcança a marca de 60 obras produzidas, totalizando mais de 9 mil metros quadrados de áreas pintadas e beneficiando diretamente mais de 400 artistas, produtores culturais e trabalhadores da economia criativa.



