Cultura

Projeto de Oficinas Em Teatro do Oprimido percorre o Amazonas em 2025 e 2026

O projeto superou a meta de participantes

O que acontece quando o teatro deixa os palcos convencionais e se torna uma tecnologia de escuta em centros de reabilitação, comunidades indígenas e associações de pessoas com deficiência? O balanço final do projeto “Oficinas Formativas em Teatro do Oprimido: possíveis experimentações para Narrativas (Auto)biográficas no Ensino de Ciências e a Vida” traz a resposta em números e afetos. Realizado pelo Coletivo Allegriah, o projeto encerrou seu ciclo superando a meta de público em quase 20%, alcançando 196 pessoas em cinco municípios do Amazonas.

Viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), a iniciativa percorreu Manaus, Iranduba, Rio Preto da Eva, Novo Airão e Coari. O foco não foi apenas a formação estética, mas o uso da metodologia de Augusto Boal — reconhecida pela UNESCO — para transformar realidades e ensaiar mudanças sociais.

Uma Travessia por Territórios de Resistência

A coordenadora geral do projeto, a escritora, atriz e arte-educadora Jackeline Monteiro, define a jornada como um “atravessamento bonito e necessário”. Para ela, o projeto revelou a desigualdade no acesso à cultura, mas também a resiliência das populações periféricas.

“Encontramos histórias distintas, corpos diversos e tempos desiguais de acesso à cultura. Havia quem estivesse pisando pela primeira vez no território da arte. Dói reconhecer que o teatro ainda não chega a tantos municípios, mas alegra profundamente poder ser ponte e abrir frestas onde antes havia silêncio”, reflete Jackeline.

A coordenadora ressalta que a presença de migrantes e refugiados nas oficinas em Manaus e na Região Metropolitana ampliou o sentido da atividade. “Todas essas presenças ampliaram o sentido de pertencimento, resistência e cuidado coletivo”, pontua.

O Mapa da Transformação: Dos Centros de Reabilitação às Escolas Indígenas

O balanço detalhado por município demonstra a capilaridade do projeto e a diversidade de públicos atendidos:

  • Manaus: No Centro Espírita Casa do Caminho (Zona Norte), 36 participantes, entre crianças e idosas, transformaram o espaço em um território de afeto.
  • Novo Airão: O teatro chegou à Fundação Almerinda Malaquias e à Escola Indígena Juruti (Comunidade Maku Ita), onde 33 pessoas, entre jovens e adultos, utilizaram o corpo e o silêncio como ferramentas de expressão.
  • Rio Preto da Eva e Iranduba: Em parceria com a Escola de Egressos (UEA), o projeto atuou no Centro de Reabilitação Ismael Abdel Aziz e no Lar Terapêutico Ágape. Ao todo, 73 internos em processo de reconstrução de vida experimentaram o teatro como possibilidade de reinvenção.
  • Coari: Em uma parceria sensível com o músico Kerby Groove na Associação Pestalozzi, 55 pessoas com e sem deficiência vivenciaram o teatro e a música como ferramentas de inclusão.

Economia Criativa e o Legado Digital

Para além das oficinas, o Coletivo Allegriah movimentou a economia local ao contratar produtores e monitores aprendizes em cada cidade visitada. “A cultura se faz em rede, com gente do lugar e compromisso”, afirma a coordenação.

O projeto agora entra em sua fase de difusão de conhecimento. Uma série de lives formativas, com a participação de mestres e doutores como Caroline Barroncas, Mônica Aikawa e Osmarina Lima, já está disponível para o público. Os encontros debatem temas como práticas emancipatórias e a interseção entre arte e política.

“O que fica é a certeza: onde o teatro chega, algo se move. E quando ele chega pelo viés da inclusão, não é apenas arte, é direito, é cuidado, é vida em cena”, finaliza Jackeline Monteiro.

Apoio

O projeto “Oficinas Formativas em Teatro do Oprimido: possíveis experimentações para Narrativas (Auto)biográficas no Ensino de Ciências e a Vida”  tem o apoio do Governo do Estado do Amazonas, via Secretaria de Cultura e Economia Criativa, e do Governo Federal, por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).

Parcerias

Escola de Egressos (UEA), Grupo de Pesquisa “Vidar em In-tensões” (UEA), Centro Espírita Casa do Caminho, Fundação Almerinda Malaquias, Prefeitura e Secretaria de Cultura de Novo Airão (AM)

Ficha Técnica

Jackeline Monteiro – Coordenação Geral, Produção executiva, Oficineira

Stivisson Menezes –  Oficineiro, Coordenador de Logística, Assistente de Produção, Mediador

Vitor Lima–  Oficineiro, Assistente de Produção, Mediador.

Deihvisom Caelum – Oficineiro, Assistente de Produção.

Leandro Lopes – Assistente de Produção, oficineiro

Osmarina Lima – Coordenação pedagógica

Anna Angelo – Oficineira, Assistente de Produção

Francisca Monteiro – Assistente de Produção

Eriane Lima – Produtora Cultural e Oficineira, Casa do Caminho

Produtores Culturais de Coari

Anderson Sena–  (Produtor Cultural – Coari)

Alan da Silva–  (Produtor Cultural – Coari)

Iranilton Lopes– (Produtor Cultural – Coari)

Deivison Dantas – (Fotógrafo, Captador de vídeo e imagem – Coari)

Produtores Culturais Novo Airão

Matheus Isaac (Produtor Cultural – Novo Airão)

Fábio Lucas– (Produtor Aprendiz – Novo Airão)

Cleberson – Fotógrafo e Videomaker – Novo Airão

SERVIÇO E ACESSO AO CONTEÚDO

  • Lives e Podcasts: Disponíveis no canal do YouTube JM Arte, Literatura e Produção Cultural e no Spotify (Podcast “Entrevistas – Oficinas Formativas em Teatro do Oprimido”).
  • Link de Acesso: YouTube Playlist
  • Informações: @allegriahoficial (Instagram).
  • Contato para Imprensa: Wanessa Leal – (92) 98258-9133

Anexo

Entrevista

1. O projeto superou a meta de participantes em quase 20%. A que você atribui essa procura acima do esperado?

 Jackeline Monteiro: “Atribuo à sede de escuta que existe nos interiores e nas periferias. O Teatro do Oprimido não é um teatro de contemplação, é um teatro de ação. Quando as pessoas percebem que aquele espaço é para elas falarem de suas próprias vidas, de suas dores e de seus sonhos, elas se aproximam. Além disso, o trabalho em rede com parceiros locais como a Pestalozzi em Coari e a Fundação Almerinda Malaquias em Novo Airão foi fundamental para mobilizar a comunidade de forma orgânica.”

2. Vocês trabalharam em contextos muito sensíveis, como centros de reabilitação e lares terapêuticos. Como o teatro auxilia nesse processo de cuidado?

 Jackeline Monteiro: “Nesses espaços, o teatro atua como uma ferramenta de humanização. Muitas vezes, o indivíduo em reabilitação é visto apenas pela sua condição de dependência. O Teatro do Oprimido devolve a ele o papel de ‘espect-ator’, de alguém que pode analisar sua realidade e ensaiar novas possibilidades. É o que chamamos de ‘vida em cena’: o palco vira um laboratório para a vida real, onde o gesto e a palavra ajudam a organizar o caos interno e a reconstruir o sentimento de pertencimento.”

3. Qual foi o impacto de levar essa metodologia para uma escola indígena e lidar com públicos tão diversos, incluindo migrantes e refugiados?

 Jackeline Monteiro: “Foi um dos maiores aprendizados desta travessia. Na Escola Indígena Juruti ou no contato com migrantes em Manaus, percebemos que a opressão e o silenciamento mudam de face, mas a necessidade de resistência é universal. O teatro de Augusto Boal é uma linguagem que atravessa fronteiras. Mesmo quando havia barreiras linguísticas ou tempos culturais diferentes, o jogo e o símbolo nos conectavam. Isso ampliou nossa visão sobre o que é fazer cultura na Amazônia hoje: é acolher a diversidade de corpos que habitam este território.”

4. Além do impacto artístico, o projeto destaca a Economia Criativa. Como isso funcionou na prática?

 Jackeline Monteiro: “Nós acreditamos que a cultura deve gerar legado onde ela passa. Não queríamos apenas chegar, apresentar e ir embora. Por isso, abrimos frentes para monitores aprendizes e contratamos produtores locais em municípios como Coari e Novo Airão. Capacitar jovens da periferia em logística cultural e registro de imagem é garantir que, após a nossa partida, essas ferramentas continuem nas mãos deles para que possam contar suas próprias histórias e movimentar a economia de seus territórios.”

5. O ciclo presencial encerrou, mas o projeto continua no ambiente digital. O que o público pode esperar dessas lives e podcasts?

Jackeline Monteiro: “O objetivo é democratizar o pensamento teórico por trás da prática. Reunimos especialistas, mestres e doutores para debater a interseção entre arte, educação e sociedade. Queremos que professores, artistas e gestores públicos possam acessar esse conteúdo no YouTube e Spotify para entender como o teatro pode ser aplicado como política pública de inclusão. O projeto encerra um ciclo de oficinas, mas o diálogo que ele abriu é permanente.”

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