Corriam os anos 90 e eu, passando por uma fase de casa-separa-casa-separa, morando em hotéis do Centro da cidade, resolvi ir para o Festival de Parintins…bebidas, cunhãs, sol, orgias, axé no Ilha Verde e a volta para Manaus…
Passados alguns dias, comecei a apresentar sintomas estranhos, vômitos e uma magreza que se acentuava mais e mais…corrí para o Instituto de Medicina Tropical para fazer um teste HIV…o nervosismo era tanto que o atendente quase não consegue colher a amostra de sangue…
Chegando o dia de saber o resultado, eu chego lá…salinha minúscula e três pessoas na minha frente…uma para saber resultado e duas para pegar coquetel AZT…O dr. Rogélio Casado chega com uma prancheta na mão, pergunta quem é quem, olha pra mim e diz: “Voce, João Dantas, vou atender por último…precisamos ter uma conversa séria…”
Desnecessário dizer que meu mundo caiu. Passados alguns minutos que pareceram anos, ele me manda entrar…sento-me, ele abre um envelope pardo e começa a fazer perguntas tipo: se eu usava camisinha, se já tinha apresentado aqueles sintomas antes, se…se…se… Não aguentei mais e disse: “eu estou com AIDS ou não?”…ele retruca: “voce acha que está? E se estiver?”…já ia começar a chorar quando ele disse: “não. Não está não. Deve ser só uma infecção intestinal”.
Nasci de novo. Depois ele me explicou que o terror foi só pra me dá um choque…uma desfribilação mental pra eu ser mais precavido e mais responsável nos próximos festivais e orgias que viriam…e vieram. Saí de lá sentindo o vento no rosto como se fosse a primeira vez…todas as vezes que ele me encontrava em algum evento, ele piscava e ria…grande psiquiatra…morreu e nunca soube que meu verdadeiro problema era na cabeça: doidice generalizada com metástase em estágio terminal.
Contos do jornalista João Dantas


