Elvira Eliza França
Está próximo o Dia da Criança e esta reflexão tem como destinatários os pais e outros familiares e amigos que planejam comprar um presente para dar às crianças. De um modo geral, os presentes escolhidos são brinquedos, roupas, calçados e até mesmo jogos e equipamentos eletrônicos, quando a família tem mais recursos financeiros. Contudo, a sugestão é que se lembrem dos livros como presente, porque eles representam um acréscimo valioso para o desenvolvimento da criança, não apenas no tempo presente, como também no futuro. A exposição das crianças à leitura de livros, com sua complexidade própria na apresentação das imagens e do vocabulário, integra a percepção visual, auditiva, a formação de vocabulário e de conceitos, e ainda favorece o desenvolvimento emocional e a relação afetiva da criança com quem lê para ela, com quem a ouve lendo, e com quem comenta com ela sobre os conteúdos lidos.
Visitar uma livraria pode ser um presente para o Dia da Criança. Ali, fazendo a manipulação cuidadosa dos livros, e a escolha de qual deles poderá ser levado, a criança aprende a valorizar os livros e tudo o que eles poderão representar na transformação do cotidiano no desenvolvimento infantil. Mesmo quando não há possibilidade para o adulto comprar um livro, a visita e o vínculo afetivo na relação da criança com o adulto e o livro já é um grande presente. Isso é válido para crianças que já nasceram e estão em fase escolar ou pré-escolar, e também para aquelas que estão aguardando o momento para nascer no ambiente intrauterino.
O feto, quando atinge os seis meses de formação, já está com o seu sistema auditivo desenvolvido e com capacidade de ouvir sons e palavras. Por isso, ler livros e contar histórias para o bebê, ainda no útero materno, representa um momento afetivo de contato pré-natal e de estimulação para o desenvolvimento auditivo. Depois que a criança nasce, aos seis meses de idade, ela já está com o sistema visual desenvolvido e manter a prática de ler histórias, com apresentação das imagens das ilustrações e as palavras, assim como fazer os comentários sobre os conteúdos das histórias, favorece o letramento. A prática de manipular livros desde o início da infância faz com que a criança se sinta motivada a aprender a ler e a escrever, antes mesmo do período escolar, o que é denominado de letramento precoce.
A neurocientista americana Maryanne Wolf, em seu livro “O cérebro leitor”, diz que a criança, nos seus 2000 dias antes da aquisição da leitura, cria um acervo de palavras na fase pré-escolar, que servirá de base para sua vida escolar. Entre as crianças de dois e cinco anos, há um aprendizado de duas a quatro palavras por dia, e aos cinco anos esse acervo pode chegar a 10.000 palavras, se a criança for estimulada. Por isso, crianças que não têm experiências precoces de leitura sofrem prejuízos e desvantagens na vida escolar, devido à pobreza vocabular, presente nos ambientes empobrecidos de leitura na família e na comunidade.
O texto livresco, que é mais elaborado, requer esforço mental e flexibilidade cognitiva para compreensão das palavras, e ajuda a criança no uso das metáforas e analogias, além ajudar na formação de esquemas na forma de pensar. Por meio da leitura de livros, a criança aprende a fazer deduções e adivinhações, e também reconhece palavras desconhecidas a partir do contexto. Wolf menciona um levantamento realizado em três comunidades de Los Angeles, nos Estados Unidos, que constatou que nas comunidades mais desfavorecidas, com renda média e baixa, foi constatada a presença de uma média de três livros, enquanto que na comunidade abastada havia 200 livros. Diz que a quantidade de livros que uma criança tem acesso na infância representa uma grande diferença no desempenho escolar, em termos de vocabulário, compreensão da leitura e, de um modo geral, no desempenho da linguagem. A pesquisadora acrescenta que os livros e os rituais de leitura, assim como as conversas sobre a compreensão dos conteúdos e a renovação permanente do vocabulário, criam uma oportunidade ímpar na educação infantil, que irá favorecer a vida escolar da criança na infância e posteriormente na vida adulta.
A importância da leitura de livros para as crianças se faz presente, principalmente, antes da fase escolar: ouvir histórias, ver imagens, focar a atenção, descobrir nomes e conceitos e despertar a curiosidade para ler outros livros, pode ser desenvolvido nessa fase. Tudo isso é fundamental para o desenvolvimento da linguagem e também para a relação social que a criança estabelece com os outros. Com as leituras, ela vai aprendendo a pronúncia correta e a entonação das palavras, e a consciência sonora que adquire ainda se amplia com as rimas, as fantasias, encenações e também as canções das brincadeiras infantis. Por isso, quando a criança ouve as histórias dos livros, ela tem a sensação de ser amada no processo de letramento precoce, que integra visão, audição, cognição e linguagem, juntamente com o processo afetivo do adulto que a estimula a ler.
Nesse sentido, a leitura também proporciona o desenvolvimento emocional da criança, porque a experiência de ler a ajuda a criar um repertório de emoções, a partir das diferentes personagens das histórias lidas, além do contato com quem a estimula a ler. É com as personagens das histórias que a criança começa a pensar na possibilidade da existência do outro e desenvolve a empatia: ela sai de si, do seu egocentrismo, para compreender a existência do outro, e nesse processo aprende a se tornar solidário com o próximo. Ela também aprende que há possibilidades de representar personagens, o que enriquece seu repertório comportamental na comunicação e nas relações interpessoais.
A neurocientista faz o alerta para os casos de crianças que têm problemas de infecção no ouvido, que afetam a audição e a formação do repertório das palavras na memória auditiva e recomenda tratamento médico. Ela destaca que a forma de ouvir as palavras interfere na formação e aprendizagem de conceitos, o que também irá afetar a capacidade da criança se comunicar. Destaca a importância que a aprendizagem precoce da leitura sistemática no cotidiano da criança, que favorece o seu desenvolvimento; e lembra que as rimas dos poemas e das cantigas de roda representam outro recurso importante para o desenvolvimento infantil, no ambiente cultural em que a criança vive. Acrescenta que o aprendizado bilíngue de uma língua estrangeira, nessa fase de aprendizagem da leitura, também é favorável para que seja possível uma comunicação verbal sem sotaques.
Um dado muito importante dos estudos de Wolf é que ela faz um alerta em relação à substituição da leitura dos livros pelos estímulos das telas digitais. Diz que as telas digitais impedem a leitura profunda, com toda a sua complexidade, que requer foco de atenção, pensamento crítico e relação de causa e consequência. Além disso, a sobrecarga de informações excita demasiadamente o sistema visual da criança, enquanto o processamento da compreensão se dá de modo superficial, porque fica impossível à criança processar tantos estímulos que são apresentados tão rapidamente a ela. Por estimularem o centro do prazer no cérebro, as imagens digitais ainda podem desenvolver uma excitação acima do normal no cérebro da criança e ativar uma relação de dependência, o que vem causando transtornos de comportamento e até problemas psiquiátricos mais graves. O estímulo das telas digitais empobrece o desenvolvimento do contato interpessoal direto e da empatia da criança, assim como o pensamento crítico e as inferências. A neurocientista ressalta que a leitura de livros favorece a função contemplativa da criança e estimula a capacidade de reflexão criativa da criança, o que a faz sentir o desejo de compreender o que lê e também de escrever seus próprios pensamentos e histórias.
Referência: WOLF, Maryanne. O cérebro leitor. São Paulo: Contexto, 2024.

Elvira Eliza França



