Liberdade, igualdade e o direito à busca da felicidade. Esses são alguns dos princípios consagrados na Declaração de Independência dos Estados Unidos, que completa 250 anos neste sábado (4). O documento moldou a identidade do país e inspirou democracias ao redor do mundo. Dois séculos e meio depois, porém, esse legado volta ao centro do debate em meio a questionamentos sobre o retrocesso de direitos civis e liberdades individuais.
Na última semana, oito ativistas foram condenados a penas que variam entre 50 e 100 anos de prisão por participação em um protesto em frente ao centro de detenção Prairieland, do ICE (o Serviço de Imigração americano), na cidade de Alvarado, no Texas. As sentenças chamaram atenção pela severidade: antes dos perdões concedidos por Donald Trump aos envolvidos na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, a maior pena aplicada naquele caso foi de 22 anos de prisão.
O caso remonta à noite de 4 de julho de 2025, quando manifestantes realizaram um protesto em apoio a imigrantes detidos na unidade do ICE em questão. O ato foi organizado como uma “noise demonstration“, tática de protesto na qual os ativistas usam fogos de artifício e fazem barulho para chamar atenção. O objetivo, nesse caso, era fazer com que os detidos ouvissem a manifestação. Segundo a acusação, porém, tratava-se de uma emboscada planejada contra policiais. O governo afirma que Benjamin Song, condenado a 100 anos de prisão, abriu fogo e atingiu o tenente Thomas Gross, da polícia de Alvarado, pelas costas.
Para a Promotoria, os manifestantes integravam uma célula ligada ao movimento Antifa e atuaram em conjunto para executar o ataque, o que fundamentou as condenações por apoio material ao terrorismo. As defesas contestam essa versão, afirmando que os réus participavam apenas de um protesto em solidariedade aos imigrantes e negam a existência de uma organização terrorista ou de um plano coletivo para atacar policiais. Todos recorreram da decisão.
Ao SBT News, Amber Lowery, de 43 anos, irmã de Savanna Batten, de 33 anos, — condenada a 50 anos de prisão —, contesta a versão apresentada pela acusação. Ela afirma que o protesto foi pacífico e que, antes do tiroteio, a maioria dos manifestantes já havia deixado o local após atender a uma ordem de dispersão dada por agentes penitenciários que confirmaram o relato em juízo.

Amber diz que, no momento do tiroteiro, apenas três manifestantes permaneciam no local recolhendo resíduos dos fogos de artifício. Segundo ela, foi nesse instante que o tenente Thomas Gross teria chegado de carro e aberto fogo contra o grupo, dando início à troca de tiros que terminou com o tenente ferido. Essa versão é contestada pela acusação, que sustenta que Gross reagiu a uma emboscada planejada pelos manifestantes.
A irmã de Savanna alega que, quando Gross saiu do veículo e abriu fogo contra os manifestantes, Song, que estava armado com um rifle, respondeu com 11 disparos para o chão. Quando advogados e investigadores foram ao local, encontraram as marcas desses tiros no concreto, mas o governo nunca fotografou nem periciou esses vestígios e tampouco incluiu essas evidências no processo.
“O tenente Thomas Gross foi quem atirou primeiro. O governo diz que ele disparou apenas três vezes, e somente depois de ter sido atingido. Mas isso não é verdade. Depois do julgamento, encontrei um vídeo que mostra que Gross abriu fogo antes de ser baleado e atirou mais vezes do que o governo admite. Além disso, um oficial testemunhou durante o julgamento ter recolhido a arma de Gross após o tiroteio”, afirma Amber.
“A arma de Gross nunca foi incorporada às evidências nem submetida a exames forenses. Acreditamos que isso ocorreu porque a perícia poderia demonstrar que o tiro que atingiu Gross nas costas foi, na verdade, um disparo da própria arma dele, depois que atirou contra Song”, acrescenta.
Amber acredita que o primeiro disparo feito por Thomas Gross atingiu a arma de Benjamin Song e, ao ricochetear — termo usado quando um projétil bate em uma superfície, muda de direção e segue seu trajeto — acabou ferindo o próprio tenente. Para ela, essa hipótese ajuda a explicar inconsistências que, segundo a defesa, nunca foram esclarecidas pela investigação, o que reforçaria a versão de que a dinâmica do tiroteio foi diferente da apresentada pela acusação.
A irmã de Savanna também questiona as provas apresentadas no julgamento. Segundo ela, a acusação exibiu uma foto da câmera corporal de Gross caída na grama e sustentou que ela havia sido arremessada de seu corpo pelo impacto do disparo. Apesar disso, o vídeo mostrado ao júri foi interrompido antes do fim e as imagens completas mostram Gross sobre o asfalto, levantando-se após os disparos e correndo ainda com a câmera presa ao corpo.
Além disso, Amber diz ainda acreditar “fortemente” que havia um infiltrado do governo entre os manifestantes. De acordo com ela, o suposto agente externo seria Nathan Baumann, desconhecido pelo grupo e havia viajado de College Station, cidade localizada a cerca de três horas de Alvarado, para participar do protesto. Imagens de câmeras de segurança mostram Baumann praticando atos de vandalismo, como chutar placas e pichar estruturas. Ele se declarou culpado na Justiça e foi condenado a apenas 22 meses de prisão.


Após ser presa, Savanna teria enfrentado um período de isolamento e maus-tratos. Amber relata que a irmã passou cerca de três meses em confinamento solitário, sem contato com outras pessoas além dos agentes penitenciários. Savanna também ficou sem o aparelho auditivo e os medicamentos de uso contínuo e foi pressionada a assinar um documento no qual se declarava membro do movimento Antifa.
“Durante o julgamento, ela contou que, depois de várias negativas ao ser perguntada se era membro da Antifa, os policiais deram a Savanna três dias para assinar o documento ou ‘enfrentar as consequências’. Temendo ser morta, ela assinou”, diz Amber.
Caso não é isolado
O caso de Savanna não é isolado. O brasileiro Anderson Crivelaro, de 56 anos, afirma ter sido submetido a torturas em um centro de detenção em Miami, um dos cinco pelos quais passou antes de ser deportado para o Brasil, em dezembro de 2025. Ele entrou nos Estados Unidos legalmente, com visto de turista, em 2021, e já havia iniciado o processo para regularizar sua situação migratória quando foi detido pelo ICE.
Como tantos imigrantes em busca do “sonho americano”, Anderson deixou o Brasil na tentativa de reconstruir a vida com a família. A decisão veio depois de perder o emprego uma semana antes do início da pandemia. Em Orlando, onde morou por quatro anos, ele abriu uma empresa, conseguiu se estabilizar financeiramente e já havia declarado imposto de renda três vezes no país. Mas tudo mudou em 19 de agosto de 2025.
“Quando fui parar nas mãos da imigração, não saí mais de lá. Não consegui dar um último abraço nas minhas filhas. É muito difícil falar sobre isso. Fui privado da minha liberdade e arrancado do convívio com as minhas filhas. Passei 35 dias sem conseguir falar com elas. A primeira videochamada só aconteceu quando eu cheguei de volta ao Brasil, em dezembro de 2025. Como pai, de tudo o que vivi, essa foi, sem dúvida, a parte mais dolorosa”, afirma Anderson.
“Dentro desses centros de detenção, o tempo passa de uma forma diferente. Existe muita incerteza. Você convive com trabalhadores, pais de família, pessoas de várias nacionalidades que também estavam tentando construir uma vida melhor e aguardavam uma resposta sobre seus processos de permanência nos Estados Unidos. O impacto humano é muito profundo. Não atinge apenas quem está preso. Atinge toda a família, todo um projeto de vida. Eu fui para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor para as minhas filhas”, acrescenta.

Anderson relata que o período mais difícil da detenção foi a passagem pelo centro apelidado de “Alligator Alcatraz”, em Miami, onde permaneceu por 14 dias. Segundo ele, a unidade se assemelhava a uma “gaiola para animais”, com celas cercadas por grades e detentos confinados 24 horas por dia, saindo apenas para as ‘parcas’ refeições.
O brasileiro afirma que as condições no local eram degradantes e que os detidos passavam fome e frio. As condições de higiene também eram precárias. Os banhos eram permitidos apenas três vezes por semana e duravam entre cinco e dez minutos.
Anderson também descreve o frio intenso como uma forma de tortura. Segundo ele, o refeitório tinha grandes saídas de ar que lançavam constantemente ar gelado sobre os detidos. Enquanto os agentes usavam casacos, toucas e luvas, os imigrantes vestiam apenas o uniforme de presidiários.
“A tortura acontecia de todas as formas: física, psicológica e mental. O tempo todo você era humilhado, desrespeitado. E eu me perguntava: qual foi o meu crime? Ser imigrante? Você percebe que, naquele momento, não é bem-vindo naquele país. Eu tinha uma empresa estabilizada, vivia com as minhas filhas, já havia declarado imposto de renda nos Estados Unidos por três anos. Construí uma vida lá. Mas nada disso foi suficiente para que eu pudesse permanecer no país”, diz.

Desde que voltou à Casa Branca, Donald Trump intensificou a política de combate à imigração irregular, com a ampliação das operações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), o aumento da capacidade de detenções e a promessa de realizar a maior campanha de deportações da história do país. No ano fiscal de 2025, o número de deportações realizadas pelo ICE saltou para cerca de 443 mil, um aumento de aproximadamente 63% em relação ao ano anterior, quando foram registradas 271 mil remoções.
Nos últimos cinco dias, as autoridades federais de imigração dos EUA prenderam mais de 10 mil pessoas, quase o dobro do ritmo registrado no início do ano, quando cerca de mil imigrantes eram detidos por dia. A intensificação das operações ocorreu após a agência receber orientação para ampliar as prisões e aumentar o número de pessoas encaminhadas para deportação. Em e-mails enviados aos funcionários, a direção do ICE comemorou os resultados, chamando-os de “notáveis”.
Apesar do avanço das ações de fiscalização e do aumento das deportações, Trump sofreu nesta semana um dos reveses mais significativos de seu segundo mandato na Suprema Corte dos EUA. Por 6 votos a 3, os ministros rejeitaram a ordem executiva do presidente que buscava restringir a cidadania por nascimento a filhos de imigrantes em situação irregular e de turistas, mantendo a interpretação consolidada da 14ª Emenda da Constituição.
‘Direitos para quem?’
A Declaração de Independência dos Estados Unidos foi assinada em 1776, em meio à Guerra de Independência contra a Inglaterra. Diferentemente do Brasil, cuja separação de Portugal ocorreu sem um conflito de grandes proporções, as 13 colônias americanas precisaram travar uma guerra para romper com a Coroa britânica. Com apoio militar da França, os colonos derrotaram os ingleses e consolidaram a independência.
Segundo a professora de relações internacionais Ana Carolina Marson, o documento surgiu em um momento de forte entusiasmo com a ideia de autogoverno e soberania. Embora as colônias fossem bastante diferentes entre si, elas estavam unidas pelo objetivo comum de conquistar a independência. Esse espírito ficou refletido na declaração, inspirada pelos ideais iluministas de liberdade, igualdade e autodeterminação que ganhavam força na época e também influenciariam a Revolução Francesa anos depois.
Ana Carolina ressalta, porém, que esses princípios não se aplicavam a toda a população. Naquele contexto, a cidadania era restrita aos homens brancos e livres. Mulheres e pessoas escravizadas estavam excluídas dos direitos defendidos pela declaração, que foi concebida por uma elite política masculina. Esse contexto histórico, explica a professora, ajuda a compreender tanto as limitações do documento em seu tempo quanto a permanência de estruturas de poder concentradas em determinados grupos ao longo da história dos EUA.
Embora a Declaração de Independência não tenha sido pensada para garantir direitos a toda a população, Ana Carolina Marson avalia que isso não impede a conclusão de que houve um retrocesso em direitos civis durante o governo de Donald Trump. Segundo a professora, a ampliação da cidadania ao longo dos últimos 250 anos representou uma série de conquistas históricas que, na avaliação dela, passaram a ser colocadas em xeque pela atual administração.
“Os EUA, quando se tornaram independentes, usavam a mão de obra escrava. Não podemos falar que um país que usa o sistema de escravidão considere todos iguais perante a lei. Não existia igualdade de gênero. Então, desde aquele momento até hoje, o que nós precisamos nos questionar é: democracia para quem? Direitos para quem?”, questiona Ana Carolina.
Para a professora, o endurecimento das políticas e o avanço da extrema direita nos EUA têm atingido não apenas os imigrantes, mas também os próprios cidadãos americanos. Ela afirma que casos como o assassinato de George Floyd, em 2020, e a morte de manifestantes durante protestos contra a violência policial e a atuação do ICE mostram que nem mesmo quem nasceu no país está imune a violações de direitos.
“Não são apenas os latinos, os muçulmanos, os negros, os imigrantes”, afirma Amber. “Qualquer pessoa que esteja, ainda que minimamente, à esquerda do movimento MAGA está em risco neste momento.”
“O que eu quero que as pessoas enxerguem é o lado humano por trás desses números e dessas estatísticas”, diz Anderson. “Porque, por trás disso tudo, há pessoas: pais, mães, filhos esperando um abraço, famílias tentando reconstruir a própria vida.”
Foto: Foto: Imagem gerada por inteligência artificial (IA)
Fonte: SBT NEWS



