A discussão sobre o fim da escala 6×1 voltou ao centro do debate nacional, mas o tema ultrapassa a esfera trabalhista. Por trás da pergunta sobre quantos dias uma pessoa deve trabalhar e descansar, existe uma questão de saúde pública cada vez mais urgente: como a rotina profissional afeta a saúde mental dos brasileiros?
Em abril, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara aprovou a admissibilidade de duas propostas de emenda à Constituição que reduzem a jornada de trabalho no país, mirando o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso. Agora, os textos são analisados por uma comissão especial na Casa.
O avanço do debate reacende um alerta em um momento em que o Brasil registra números expressivos de afastamentos por transtornos mentais. Em 2025, foram mais de 546 mil afastamentos por questões de saúde mental, segundo levantamento com dados oficiais do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), divulgado pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).
Para a psicóloga Cristiane Pertusi, a pergunta principal deixou de ser somente quantas horas uma pessoa trabalha. O ponto central é quanto tempo real ela tem para se recuperar. “Muitas pessoas têm um dia de folga, mas esse dia é ocupado por tarefas acumuladas, demandas da casa, cuidado com a família e tentativas de reorganizar a própria vida. Do ponto de vista emocional, isso pode ser insuficiente. O corpo para por algumas horas, mas a mente continua em estado de cobrança”, afirma.
A escala 6×1 prevê seis dias de trabalho e um dia de descanso. A escala 5×2 organiza cinco dias de trabalho e dois de folga. Já a 12×36, comum em áreas como saúde, segurança e serviços essenciais, alterna 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso. Além da comparação entre modelos, a discussão abre espaço para uma pergunta essencial: a folga permite recuperação emocional ou vira um intervalo para resolver pendências?
Segundo Cristiane, esse ponto faz diferença. “Descanso emocional exige tempo psíquico. A pessoa precisa ter espaço para desligar, conviver, cuidar do corpo, dormir melhor e recuperar presença. Se os dias de folga são ocupados por outras demandas, a mente continua funcionando em modo de urgência”, explica.
Esse funcionamento prolongado pode contribuir para quadros de ansiedade, irritabilidade, insônia, apatia, dificuldade de concentração e sensação de esgotamento constante.
Sinal de alerta
Um dos desafios, segundo a psicóloga, é que muita gente só percebe o problema quando o rendimento cai ou quando o afastamento se torna necessário. Antes disso, o corpo costuma dar sinais.
Na psicossomática, compreende-se que emoções persistentes, quando ignoradas ou reprimidas, podem se manifestar também no corpo, por meio de sintomas físicos. Entre os alertas estão cansaço persistente, sono sem recuperação, dores tensionais, impaciência frequente, dificuldade de relaxar, perda de interesse por atividades antes prazerosas e sensação de estar sempre no limite.
“A exaustão costuma ser normalizada. A pessoa dorme mal, fica irritada, perde prazer, sente dificuldade de concentração e acredita que isso faz parte da vida adulta. Quando chega ao afastamento, em muitos casos, o corpo já vinha avisando há bastante tempo”, diz Cristiane.
A síndrome de burnout é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho. Ela envolve exaustão, distanciamento mental em relação ao trabalho e sensação de queda de eficácia profissional. Para a especialista, o debate sobre jornada precisa considerar esse cenário.
“O burnout mostra que o trabalho pode impactar profundamente a saúde mental. A pessoa adoece por viver durante muito tempo sem recuperação, sem limites claros e com pressão contínua”, afirma.
A ansiedade pode aparecer nesse contexto. Em muitos casos, a condição surge como um estado permanente de alerta. A pessoa tenta descansar, mas continua pensando no que precisa entregar, no que ficou pendente ou no que pode dar errado.
Para Cristiane, a jornada precisa sair da lógica exclusiva da produtividade e incluir a saúde mental como elemento central. “Descanso é parte do funcionamento psíquico. Uma pessoa sem tempo de recuperação tende a operar em modo de sobrevivência. Ela fica mais irritada, mais ansiosa, dorme pior, se afasta das relações e começa a tratar o próprio esgotamento como se fosse normal”, afirma.
A psicóloga orienta observar três pontos: duração, impacto e intensidade. O cansaço melhora com descanso real ou permanece mesmo após pausas? Ele já afeta sono, humor, relações e desempenho? A pessoa sente que vive no limite, mesmo diante de demandas comuns?
“Cansaço comum melhora com recuperação. Esgotamento emocional tende a continuar mesmo quando a pessoa tenta parar. Esse é um sinal importante”, explica a psicóloga. “Procurar ajuda profissional é indicado quando o sofrimento se torna frequente, quando há prejuízo nas relações ou no trabalho, ou quando a pessoa sente que perdeu recursos internos para lidar com a própria rotina”, aconselha.
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Fonte: SBT News



