Amazonas

Itacoatiara repete surtos de “doença da urina preta” pela terceira vez em cinco anos

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Três casos confirmados em 2025. Dois em junho, um em dezembro. Todos em Itacoatiara, município a 270 quilômetros de Manaus que, desde 2021, reaparece de forma recorrente nos registros da síndrome de Haff — conhecida como doença da urina preta. O dado foi confirmado pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-RCP) em boletim divulgado em 29 de janeiro de 2026. O discurso institucional permanece o mesmo há cinco anos: vigilância ativa, monitoramento e orientação à população. O resultado prático, no entanto, também se repete: novos casos, mesma cidade, nenhuma resposta estrutural.

Os números revelam um padrão epidemiológico inequívoco. Em 2021, Itacoatiara concentrou 34 dos 44 casos confirmados no estado, com um óbito. Em 2023, foram 36 dos 49 registros no Amazonas. Em 2025, os três casos confirmados ocorreram novamente no município. O boletim epidemiológico divulgado em agosto de 2023, abrangendo o período de julho de 2022 a julho de 2023, apontou 114 casos compatíveis distribuídos em dez municípios amazonenses. Ainda assim, Itacoatiara aparece de forma sistemática como epicentro. Não se trata de evento isolado, mas de reincidência concentrada.

A diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim, afirma que a doença de Haff exige atenção permanente por estar associada ao consumo de pescado, alimento central na dieta amazônica. O diagnóstico é correto. A omissão começa quando se observa que, passados cinco anos do primeiro surto documentado, não há registro público de um protocolo preventivo específico voltado a Itacoatiara — justamente o município que concentra a maioria absoluta dos casos.

A coordenadora do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde do Amazonas (CIEVS-AM), Roberta Danielli, oferece um dado-chave: em todos os casos compatíveis houve relato de consumo de pacu, geralmente preparado frito ou assado e ingerido no ambiente domiciliar. A repetição da mesma espécie como fator comum desde 2021 aponta para um problema localizado na cadeia de comercialização, armazenamento ou transporte do pescado na região. Estudos científicos conduzidos por instituições nacionais indicam que a toxina associada à síndrome de Haff é termoestável, não altera o sabor nem o aspecto do peixe e resiste ao cozimento. O risco não está no ato de consumir peixe, mas na incapacidade do sistema de identificar e bloquear a origem da contaminação.

O próprio boletim epidemiológico da FVS-RCP revela o gargalo operacional: na maioria dos casos, o peixe é totalmente consumido ou descartado antes do surgimento dos sintomas, o que dificulta a coleta de amostras para análise. Há ainda registros de pacientes que não souberam informar a procedência do pescado ou o estabelecimento de compra, inviabilizando o rastreio da origem. Em termos práticos, isso significa que a cadeia de rastreabilidade do pescado em Itacoatiara é falha — e permanece falha apesar da reincidência dos surtos

Os casos de 2025 seguiram o padrão clínico clássico da síndrome: dores musculares intensas, fraqueza e urina escura, com início dos sintomas cerca de nove horas após o consumo do peixe. Exames laboratoriais apontaram níveis de creatinofosfoquinase (CPK) em torno de 6.400 µ/L, valor que indica rabdomiólise severa, condição potencialmente grave. Dois dos pacientes pertenciam à mesma família e consumiram o mesmo alimento preparado em casa. A transmissão não ocorre entre pessoas, mas do alimento para o consumidor. Cada caso, portanto, representa uma falha pontual na cadeia de abastecimento.

Em 2021, especialistas afirmaram que não havia indicação para suspender o consumo de peixes no Amazonas, uma vez que o número de casos era estatisticamente pequeno frente ao volume consumido. A afirmação é tecnicamente correta, mas insuficiente diante da evidência acumulada. A concentração geográfica dos registros demonstra que o problema não é estadual, mas localizado. O protocolo adequado não é uma recomendação genérica à população, e sim a intervenção cirúrgica na cadeia de pesca e comercialização do município reincidente.

Um modelo preventivo minimamente eficaz exigiria medidas objetivas: rastreabilidade obrigatória da origem do pescado comercializado em Itacoatiara; fiscalização intensificada de armazenamento em embarcações, entrepostos e feiras; coleta periódica de amostras aleatórias para análise laboratorial; e campanhas educativas orientando a população a preservar restos do alimento em caso de sintomas. Nenhuma dessas ações estruturantes aparece de forma clara ou contínua nos boletins oficiais entre 2021 e 2026.

A síndrome de Haff foi descrita pela primeira vez em 1924, na Europa, e segue com etiologia parcialmente desconhecida. Ainda assim, seus padrões epidemiológicos são bem definidos: associação com determinadas espécies, recorrência geográfica e relação direta com falhas de acondicionamento. Itacoatiara reúne todos esses fatores. Quando um mesmo município registra surtos repetidos de uma doença rara ao longo de cinco anos, não se trata de azar estatístico. Trata-se de falha sistêmica de vigilância sanitária.

Em 2026, o cenário permanece inalterado. Casos surgem, investigações são abertas, boletins são publicados e alertas genéricos são emitidos. A origem da contaminação segue desconhecida, e nenhuma intervenção estrutural é anunciada. Em Itacoatiara, a doença da urina preta deixou de ser apenas um evento epidemiológico raro e passou a funcionar como indicador crônico de ineficiência administrativa. O padrão está mapeado, os dados são públicos e a omissão é mensurável. O que falta não é informação, mas decisão.

Fonte: Folha de São Paulo de hoje.

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